Então cá estou eu sentado alguns anos depois. Vários meses depois. Centenas de dias depois. Milhares de horas depois. Ainda sinto que meu barco ruma pro mesmo norte. Mas essa sala de cinema tem ficado cada vez mais vazia, é essa a tendência? Quando me perguntam algo profundo eu não consigo sair do raso.Quebro todos os palitos de fósforo usados, tento construir uma obra de arte excelente, mas o mais perto que eu chego é um pedaço de papel que foi parar no lixo ou um arquivo deletado.
Como sua voz soa agora? Nós somos todos milhares de pedacinhos pequenos esperando para sermos encaixados num belo quebra-cabeças, algumas peças não se encaixaram, é verdade, mas nós tentamos, não é mesmo? É grave pensar no que vai ser amanhã, mas ainda é bom se enganar, pelo menos por enquanto. Espero que seja assim.
Minha obra de arte.
domingo, 29 de maio de 2011
sábado, 28 de maio de 2011
Absolutamente nada
Absolutamente nada. Você acorda, olha sua agenda mental e não há mais nada, você até se sente aliviado por não ter uma consciência a te cobrar o que fazer, entretanto você realmente não sabe o que fazer. Ok, você acorda todos os dias o mesmo horário, com a mesma cara de sempre, nada mudou até agora. Nada substancial. Tanto faz é o que você pensa,olha para os seus livros, alguns são fúteis, outros são mais fúteis ainda, alguns você nunca se lembrará que algum dia leu, eles não te atraem de forma alguma. Passam-se duas horas, três horas, sua consciência diz que é hora de comer, mas não, não o seu corpo, o seu corpo ficaria por mais várias horas sem comer, e você não sabe bem o porquê de nada, mas tem que seguir os protocolos.
Você perde alguns minutos com um livro, alguns minutos com um instrumento, alguns minutos pensando sobre quem não muda, o dia vai passando, chega finalmente a parte que você mais gosta, quando tudo vai ficando azul frio, azul é legal, mas talvez esteja se tornando comum demais, provavelmente é melhor você escolher algum tom original de azul pra poder voltar a se sentir único. Tudo bem, não tem problema, agora o dia está acabando, você gastou algumas horas com rostos distantes, falsos e mágicos, remédios doces, mas por alguns segundos você infelizmente se pergunta, o dia realmente está acabando? Quer dizer, quando o dia acaba? Por que ele acaba? O que fazer quando ele acaba? E agora?
Tudo que na verdade você queria era se ferir e ver o sangue sair, se quebra, se machucar, é o que eles dizem sobre isso, faz você sentir vivo. Tantos vocês e nenhum eu, nenhum comigo, nenhum nós, nenhum. Triste é saber que não vai ser diferente pra você agora, mas se lembre de não lembrar de mim.
Você perde alguns minutos com um livro, alguns minutos com um instrumento, alguns minutos pensando sobre quem não muda, o dia vai passando, chega finalmente a parte que você mais gosta, quando tudo vai ficando azul frio, azul é legal, mas talvez esteja se tornando comum demais, provavelmente é melhor você escolher algum tom original de azul pra poder voltar a se sentir único. Tudo bem, não tem problema, agora o dia está acabando, você gastou algumas horas com rostos distantes, falsos e mágicos, remédios doces, mas por alguns segundos você infelizmente se pergunta, o dia realmente está acabando? Quer dizer, quando o dia acaba? Por que ele acaba? O que fazer quando ele acaba? E agora?
Tudo que na verdade você queria era se ferir e ver o sangue sair, se quebra, se machucar, é o que eles dizem sobre isso, faz você sentir vivo. Tantos vocês e nenhum eu, nenhum comigo, nenhum nós, nenhum. Triste é saber que não vai ser diferente pra você agora, mas se lembre de não lembrar de mim.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Antídoto.
O que faz de um pássaro o que ele realmente é? Ele ter asas? Ele voar? O que faz de você o que você é? Pode ser frustrante a conclusão, então é melhor nem pensar. Entretanto, você pode me dizer o que leva alguém a se magoar e se sentir triste apenas pra poder sentir alguma coisa? Eu imagino muito pra poder conseguir acordar, não tanto quanto pra conseguir dormir. Você tem sido um atalho fácil pros meus sonhos, mas eu sei que são todos utopias bobas, de alguém que precisa mais do que o que os comerciais oferecem, os produtos baratos demais, fáceis demais, eu preciso ver sua pele.
Eu odeio a lua, e ela que me desculpe, mas sua beleza não traz nada confortante, sempre que ela aparece cheia eu estou vazio, eu não vou mentir de novo, eu sinto sua falta e sinto vontade de poder beber a nossa água juntos sem veneno, mas ele já impregnou tudo, infelizmente. Me sinto um resmungão velho, antiquado, esperando o momento certo de fazer não sei o quê. Me sinto preso, e não é a você, é a não poder me prender a você. E quando falo tudo isso, sinto o veneno me inundar de novo, me sinto mais uma vez apunhalado.
Eu procuro um antídoto.
quarta-feira, 11 de maio de 2011
A velha calçada.
É só no raiar das vezes que você percebe que mais um dia seu acabou, assim como mais um teste e é só uma vez em poucas que você realmente considera a outra realidade paralela a essa. Procuro meu escopo e não o encontro em lugar algum, no andar do ônibus, no falar das pessoas, nas questões existências, no mundo, no natural, no não natural, no que eu não posso tocar. Ando e vejo os jornais voarem, mas eu sei que meu outro eu poderia estar mais completo.
Eu vejo você sorrir agora, vejo seus dentes aparecerem vagarosamente enquanto noto a sua felicidade aumentar, nós somos bobos e estamos sorrindo, não, eu sou bobo, mas nós dois estamos sorrindo, disso não duvido. Vejo o que há atrás de nós como borrões, prevejo o futuro e me foco no presente, eu sei que somos muito diferentes, também sei que você não está realmente ali, mas eu consigo enxergar o que eu quero. Minha vontade é que você não fosse água entre meus dedos. Nossas ruas não são de 1808 e nem de 1810, muito menos de 1959. Nossas ruas são comuns, não são históricas, nossas ruas são artificiais. Eu quero pintá-la, quero pintá-la com alma, com cor, com história. Mas eu fico parado e quieto, esperando por esse universo que não é o meu, buscando essa realidade, eu mergulho finalmente de mim enquanto a imagem de nós dois vai se despedaçando no ar, uma vida burguesa tranquila, uma mentira, duas mentiras, ninguém se importa, eu vejo você envelhecer, vejo minhas mãos se movendo a favor dos seus cabelos, eu te ouço, você não me vê...
Caído, quieto, calado, olho para os lados e agora só vejo paredes brancas. Eu sonhei, você existiu, mas eu sonhei.
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