quarta-feira, 11 de maio de 2011

A velha calçada.

É só no raiar das vezes que você percebe que mais um dia seu acabou, assim como mais um teste e é só uma vez em poucas que você realmente considera a outra realidade paralela a essa. Procuro meu escopo e não o encontro em lugar algum, no andar do ônibus, no falar das pessoas, nas questões existências, no mundo, no natural, no não natural, no que eu não posso tocar. Ando e vejo os jornais voarem, mas eu sei que meu outro eu poderia estar mais completo.

Eu vejo você sorrir agora, vejo seus dentes aparecerem vagarosamente enquanto noto a sua felicidade aumentar, nós somos bobos e estamos sorrindo, não, eu sou bobo, mas nós dois estamos sorrindo, disso não duvido. Vejo o que há atrás de nós como borrões, prevejo o futuro e me foco no presente, eu sei que somos muito diferentes, também sei que você não está realmente ali, mas eu consigo enxergar o que eu quero. Minha vontade é que você não fosse água entre meus dedos. Nossas ruas não são de 1808 e nem de 1810, muito menos de 1959. Nossas ruas são comuns, não são históricas, nossas ruas são artificiais. Eu quero pintá-la, quero pintá-la com alma, com cor, com história. Mas eu fico parado e quieto, esperando por esse universo que não é o meu, buscando essa realidade, eu mergulho finalmente de mim enquanto a imagem de nós dois vai se despedaçando no ar, uma vida burguesa tranquila, uma mentira, duas mentiras, ninguém se importa, eu vejo você envelhecer, vejo minhas mãos se movendo a favor dos seus cabelos, eu te ouço, você não me vê...

Caído, quieto, calado, olho para os lados e agora só  vejo paredes brancas. Eu sonhei, você existiu, mas eu sonhei.

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