sexta-feira, 3 de junho de 2011

Daqui

Você olha pra ela como se o corpo fosse realmente alguma coisa útil. Quantas vezes ele não serviu de felicidade a tantos, e por que você se importaria? A relação entre as pessoas não é nada mais que uma selva, pronta pra te jogar da montanha congelada. Mas você sorri, e eu vejo que não há nada mais quente do que sentir que um dia o que está quebrado agora, era inteiro antes, e eu continuo sem saber até onde você se entregou, até onde conheceram você, continuo sem saber se é alma e corpo, ou só alma. Não deveria importar.

Veja só que estranho, são inúmeras faces, inúmeros números, mas é de qualquer forma um destino inegável. A solidão no final das contas é a única que não vai ligar te dizendo que mais tarde não dá. Ok, aceito, entregue, sem problemas, você volta, sorri de novo, dessa vez com tantas perguntas, eu não consigo responder nenhuma. Talvez fosse de pensar que não fosse belo ver essas marcas no seu rosto, mas eu não posso negar a sensação de terra a vista, não posso negar que o primeiro direito burguês está enraizado nas minas veias até onde eu não imagino como chegar.

Calma, calma, não precisa temer, ainda se passaram poucos dias, quando você ligar a TV e nenhum canal te interessar será o tempo certo, o tempo de pensar. Mais uma estrada que abre o caminho até aquele lago escuro ladeado de pedras. Sinto vontade de ouvir uma respiração, de misturar os sentidos, de ignorar tudo, de me ignorar, de transformar tudo aquilo que é certo em errado. Vontade de saber o porquê. Vontade do gosto. Não veja mais com razão, nem coração, nem corpo, nem nada mais, simplesmente veja. Seja. Quando o dia terminar, o céu começar a partir do laranja para o azul, salte. Livre-se.

domingo, 29 de maio de 2011

Arte

Então cá estou eu sentado alguns anos depois. Vários meses depois. Centenas de dias depois. Milhares de horas depois. Ainda sinto que meu barco ruma pro mesmo norte. Mas essa sala de cinema tem ficado cada vez mais vazia, é essa a tendência? Quando me perguntam algo profundo eu não consigo sair do raso.Quebro todos os palitos de fósforo usados, tento construir uma obra de arte excelente, mas o mais perto que eu chego é um pedaço de papel que foi parar no lixo ou um arquivo deletado.

Como sua voz soa agora? Nós somos todos milhares de pedacinhos pequenos esperando para sermos encaixados num belo quebra-cabeças, algumas peças não se encaixaram, é verdade, mas nós tentamos, não é mesmo? É grave pensar no que vai ser amanhã, mas ainda é bom se enganar, pelo menos por enquanto. Espero que seja assim.

Minha obra de arte.

sábado, 28 de maio de 2011

Absolutamente nada

Absolutamente nada. Você acorda, olha sua agenda mental e não há mais nada, você até se sente aliviado por não ter uma consciência a te cobrar o que fazer, entretanto você realmente não sabe o que fazer. Ok, você acorda todos os dias o mesmo horário, com a mesma cara de sempre, nada mudou até agora. Nada substancial. Tanto faz é o que você pensa,olha para os seus livros, alguns são fúteis, outros são mais fúteis ainda, alguns você nunca se lembrará que algum dia leu, eles não te atraem de forma alguma. Passam-se duas horas, três horas, sua consciência diz que é hora de comer, mas não, não o seu corpo, o seu corpo ficaria por mais várias horas sem comer, e você não sabe bem o porquê de nada, mas tem que seguir os protocolos.

Você perde alguns minutos com um livro, alguns minutos com um instrumento, alguns minutos pensando sobre quem não muda, o dia vai passando, chega finalmente a parte que você mais gosta, quando tudo vai ficando azul frio, azul é legal, mas talvez esteja se tornando comum demais, provavelmente é melhor você escolher algum tom original de azul pra poder voltar a se sentir único. Tudo bem, não tem problema, agora o dia está acabando, você gastou algumas horas com rostos distantes, falsos e mágicos, remédios doces, mas por alguns segundos você infelizmente se pergunta, o dia realmente está acabando? Quer dizer, quando o dia acaba? Por que ele acaba? O que fazer quando ele acaba? E agora?

Tudo que na verdade você queria era se ferir e ver o sangue sair, se quebra, se machucar, é o que eles dizem sobre isso, faz você sentir vivo. Tantos vocês e nenhum eu, nenhum comigo, nenhum nós, nenhum. Triste é saber que não vai ser diferente pra você agora, mas se lembre de não lembrar de mim.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Antídoto.

O que faz de um pássaro o que ele realmente é? Ele ter asas? Ele voar? O que faz de você o que você é? Pode ser frustrante a conclusão, então é melhor nem pensar. Entretanto, você pode me dizer o que leva alguém a se magoar e se sentir triste apenas pra poder sentir alguma coisa? Eu imagino muito pra poder conseguir acordar, não tanto quanto pra conseguir dormir. Você tem sido um atalho fácil pros meus sonhos, mas eu sei que são todos utopias bobas, de alguém que precisa mais do que o que os comerciais oferecem, os produtos baratos demais, fáceis demais, eu preciso ver sua pele.

Eu odeio a lua, e ela que me desculpe, mas sua beleza não traz nada confortante, sempre que ela aparece cheia eu estou vazio, eu não vou mentir de novo, eu sinto sua falta e sinto vontade de poder beber a nossa água juntos sem veneno, mas ele já impregnou tudo, infelizmente. Me sinto um resmungão velho, antiquado, esperando o momento certo de fazer não sei o quê. Me sinto preso, e não é a você, é a não poder me prender a você. E quando falo tudo isso, sinto o veneno me inundar de novo, me sinto mais uma vez apunhalado.

Eu procuro um antídoto.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A velha calçada.

É só no raiar das vezes que você percebe que mais um dia seu acabou, assim como mais um teste e é só uma vez em poucas que você realmente considera a outra realidade paralela a essa. Procuro meu escopo e não o encontro em lugar algum, no andar do ônibus, no falar das pessoas, nas questões existências, no mundo, no natural, no não natural, no que eu não posso tocar. Ando e vejo os jornais voarem, mas eu sei que meu outro eu poderia estar mais completo.

Eu vejo você sorrir agora, vejo seus dentes aparecerem vagarosamente enquanto noto a sua felicidade aumentar, nós somos bobos e estamos sorrindo, não, eu sou bobo, mas nós dois estamos sorrindo, disso não duvido. Vejo o que há atrás de nós como borrões, prevejo o futuro e me foco no presente, eu sei que somos muito diferentes, também sei que você não está realmente ali, mas eu consigo enxergar o que eu quero. Minha vontade é que você não fosse água entre meus dedos. Nossas ruas não são de 1808 e nem de 1810, muito menos de 1959. Nossas ruas são comuns, não são históricas, nossas ruas são artificiais. Eu quero pintá-la, quero pintá-la com alma, com cor, com história. Mas eu fico parado e quieto, esperando por esse universo que não é o meu, buscando essa realidade, eu mergulho finalmente de mim enquanto a imagem de nós dois vai se despedaçando no ar, uma vida burguesa tranquila, uma mentira, duas mentiras, ninguém se importa, eu vejo você envelhecer, vejo minhas mãos se movendo a favor dos seus cabelos, eu te ouço, você não me vê...

Caído, quieto, calado, olho para os lados e agora só  vejo paredes brancas. Eu sonhei, você existiu, mas eu sonhei.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Preto e branco

Cá estava eu repousado na minha alta cama, comprada aos custos de não ver por onde veio, lendo as memórias de algum autor reverenciado exaustivamente, quando interrompo minha leitura pelos versos a traduzir de um bom cantor folk que aflorava meu quarto. Devida a idade já avançada daqueles versos consegui por uma fração de segundos imaginar-me inundado no passado, 1900 e o que eu quiser ver.

Mas caí na bobagem de olhar para o lado e me deparar com meus aparates de conexão global, e vi que não estava mais nas décadas onde as coisas parecem mais simples ao discurso daqueles saudosistas, e até ao discurso daqueles que nem projetos ainda eram. De repente me forcei a ignorar computador, e tudo o mais que me ligava a esse século desprezível, como que sem entender imaginei meu quarto em preto e branco. Estranho, pensaria você meu leitor imaginário, mas eu digo que quem sabe as coisas não eram preto e branco? Quero dizer, qual seria a importância em saber diferenciar e sentir um dia ensolarado e um dia nublado? As cores estão aí, ao nosso redor e muitas vezes desprezamos.

Mergulho novamente na minha leitura, embarcado pela vontade de viver no tempo em que não me pertence, mas na minha consciência sei eu que essa ânsia de décadas passadas é só essa mania incontrolável de fugir de tudo que é seu, da sua realidade, é só essa mania suja de ignorar que você não será colocado em nenhuma prateleira. Olho pela janela e vejo que os urubus nada se importam com meus devaneios, mais uma vez sinto inveja, mais uma vez não quero ser eu.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A Caneta e a Grafite

Logo ali vem a Caneta, displicente ela está a caminhar e avista alguém, parece alta e está de luto, cabeça baixa, parece chorar. A Caneta se aproxima, e pergunta:
- Quem é você.
A desconhecida vira, escondendo o rosto triste:
- Eu? Me chamo Grafite - Responde a Grafite sem dar muita importância a estranha.
- Ah olá Grafite, me chamo Caneta, estava passando e resolvi ver se você precisava de ajuda- Diz a Caneta, agora já pondo-se a partir.
- Oh, muito generoso de sua parte, mas creio que ajuda não é exatamente o que preciso - Responde a Grafite num ar pensativo, enquanto a Caneta interessa-se por tal discurso.
- Mas me parece claro que algo lhe perturba, já conheci muitas Grafites e a senhora não me parece como elas, nesta longa vestimenta preta, se outra vez não me engano, com os olhos tristes - A Grafite agora se vira com uma expressão contrariada para a Caneta.
- Pois se o senhor conheceu tantas Grafites esqueceu-se de perceber que não sou uma grafite qualquer. Melhor dizendo talvez nem seja uma Grafite - A Grafite agora baixa a cabeça e tenta desviar o seu olhar para o horizonte.
- Hm, pois se muito bem me lembro, de todas que conheci, você talvez seja a mais diferente realmente - Declara a Caneta com confiança.
- Oh, então o senhor percebeu?
- Com certeza! Nunca vi uma Grafite tão singular quanto a senhora, quero dizer, todas as outras que eu conheci não delongaram em apenas me ignorar e fingir que eu simplesmente não me dirigia a elas. Eram sempre de tamanha arrogância que suas pontas não cabiam em si. A senhora me parece tão simples e única, se me permite dizer, que não duvido seja um modelo especial que nunca conviveu em papelarias, estojos e gavetas - A Grafite confusa tenta entender os elogios.
- O senhor está com algum parafuso solto? Não vê que sou apenas uma peça quebrada abandonada ao passado?
- Não é possível, estou pleno de minhas faculdades mentais para afirmar que a senhora é além de inteira, uma peça de extrema raridade- Sorri carinhosamente a Caneta.
- Ah não me venha com tolices, o senhor está é tentando me pregar uma peça.
- De todas minhas intenções essa definitivamente não é dirigida a você. Mas que mal lhe pergunte, por que a senhora não aceita meus elogios? Sei que não sou nenhuma Caneta chique, folheada a ouro ou muito menos vendida em caixas separadas, mas de minha sinceridade nunca poderá duvidar.

Depois de um breve silêncio, pôde-se perceber que a Grafite mudara a feição e estava agora numa mistura de reflexão e aflição.
- Bem, se é verdade o que diz, peço perdão por duvidar, mas a verdade devo lhe contar.
- Pois não.
- Não sou nenhum modelo especial, nem muito menos uma peça rara, muito embora o senhor não tenha percebido acabo de perder meu gancho, arrancado de mim. Sou agora um simples adorno da sujeira, inútil.

A Caneta vê então no ambiente o gancho estirado no chão, se abarca de toda situação e diz:
- Ah! Então é isso! A senhora é uma duquesa inglesa de peças encaixadas e removíveis. Que honra conhecê-la! Só não entendo porque acha-se inútil. - Exclama a Caneta a abrir um largo sorriso.
- Não, não, o senhor entendeu errado mais uma vez, sou uma peça barata, abandonada, tente entender que não sou única e muito menos uma duquesa.
A Caneta se aquieta por segundos e então diz:
- Siga-me.
- Onde? Não posso simplesmente seguí-lo - Mas a Caneta já havia ignorado a Grafite e segura-a pela mão levando por rua abaixo.

Alguns segundos de caminhada e eles adentram um lugar longínquo. A Grafite tenta identificar aqueles que vê, mas todos são extremamente singulares, uma caneta sem seu tubo a conversar com outra sem suas tintas, como poderia ser possível? E olhe aquele apontador sem lâminas, "oh meu deus, como deve estar sofrendo" pensou ela. Depois de alguns momentos ela se vê percebida por todos, enquanto a caneta, que nunca tinha visto Grafite tão bela e conservada, se aproxima com um sorriso leve, tira seu bocal, que outrora fora remendado por dentro com cola super colante, diz:

- Agora sim, você é igual a todos nós.